Trauma e perdão: o que a psicologia tem a dizer?
- psicottrauma
- 10 de out. de 2025
- 6 min de leitura

Preciso perdoar para ficar bem?
Essa é uma dúvida comum em processos terapêuticos, especialmente quando a pessoa carrega dores antigas ou traumas profundos. Em algum momento, surge a pergunta: “Preciso perdoar para ficar bem?”. A resposta mais honesta, ética e embasada é: não necessariamente.
O perdão pode, sim, ser uma experiência valiosa, mas não é uma exigência para a melhora emocional. Quando tratado como um passo obrigatório ou imposto como condição para o bem-estar, ele pode se tornar mais um fardo, principalmente para quem já passou por experiências traumáticas como abusos, negligências, violências ou traições profundas.
O peso da imposição
Frases como:
“Você só vai se libertar quando perdoar.”
“Guardar mágoa só faz mal a você.”
“Você precisa perdoar para seguir em frente.”
"Mas acima de tudo, ela é sua mãe, ele é seu pai, devemos honrar pai e mãe".
Embora bem-intencionadas, podem invalidar a dor de quem já foi silenciado demais. Em vez de acolher, pressionam. Em vez de escutar, aceleram um processo interno que precisa de tempo, segurança e respeito.
Transformar o perdão em obrigação pode:
Reprimir emoções legítimas como raiva ou indignação;
Gerar culpa por não conseguir perdoar “o suficiente”;
Manter a vítima presa a vínculos com quem a feriu;
Impedir o reconhecimento da gravidade do que foi vivido (Walker, 2006; Herman, 1997).
O perdão não deve ser imposto como regra, mas pode se tornar uma escolha consciente, quando e se a pessoa estiver pronta para isso.
Como falamos tanto sobre perdão, vale agora conferir, de forma resumida, uma parte do que a literatura científica aponta sobre o tema.
Os tipos de perdão: nem todo perdão é igual
Vale lembrar que o perdão não é uma experiência única, nem significa que seja necessário conviver ou se reaproximar de quem causou a dor. Não é reconciliação. Ricoeur (1996) discute o perdão em relação à memória e à dívida emocional, destacando que os eventos passados não podem ser apagados, mas o significado que damos a eles pode ser transformado. Quem perdoa passa a recordar os acontecimentos dolorosos de maneira ressignificada, sem carregar o peso de uma dívida que o ofensor deveria quitar. O que é eliminado na prática do perdão é a dívida emocional, não a memória do evento. Essa libertação permite que o acontecimento traumático permaneça no passado, e abra espaço para novas escolhas no presente e no futuro.
Cada pessoa pode perdoar de maneiras diferentes, e cada forma cumpre um papel próprio e ocorre em seu tempo.
Existem alguns tipos de perdão:
Perdão disposicional: uma tendência estável de personalidade que leva a pessoa a perdoar com mais facilidade ao longo da vida (Davis et al., 2013). O que muitas vezes interpretamos como traço de personalidade pode, na verdade, refletir um padrão de aprendizagem que permitiu uma maior tolerância à dor. Elástica demais. Perigo: quando essa tendência se torna extrema, a pessoa pode perdoar constantemente, mesmo em situações que exigem limites, o que pode levá-la a se colocar em risco, aceitar abusos ou negligenciar sua própria segurança e bem-estar emocional. O perdão, nesse caso, deixa de ser uma escolha consciente e se torna uma rotina automática que não protege a pessoa de danos futuros.
Perdão emocional: consiste em ressignificar sentimentos negativos em relação a quem causou a dor, transformando-os em emoções menos intensas, de forma que não afetem mais o seu bem-estar emocional. Esse tipo de perdão pode trazer alívio e sensação de liberdade, mas somente quando é genuíno e surge de forma espontânea, sem imposição externa (Worthington et al., 2007). Por exemplo, uma pessoa que foi humilhada por um colega de trabalho consegue, ao longo do tempo, transformar a raiva intensa em compreensão ou indiferença, lembrando do episódio sem sofrer emocionalmente como antes.
Perdão decisional: é uma escolha consciente de não retaliar, mesmo que ainda haja dor. Pode ser o primeiro passo ou não (Worthington, 2006). Alguém que foi injustamente criticado por um familiar decide não guardar rancor nem buscar vingança, mantendo distância saudável e escolhendo agir com calma e respeito, mesmo que ainda sinta mágoa.
Autoperdão: direcionado a si mesmo, é essencial para lidar com culpas realistas e restaurar o cuidado com o próprio valor (Hall & Fincham, 2005). Por exemplo, uma pessoa que acabou machucando alguém durante uma discussão familiar consegue reconhecer sua atitude, pedir desculpas e perdoar a si mesma, comprometer-se a agir de forma diferente no futuro, permitindo seguir em frente sem carregar culpa excessiva ou autocrítica constante, reconhecendo sua humanidade e suas falhas.
Perdão: Um caminho possível, mas não o único
Estudos indicam que o perdão autêntico pode estar relacionado à redução de ansiedade, depressão e sintomas de estresse pós-traumático (Webb & Toussaint, 2020 ). Mas o perdão só tem efeito terapêutico quando é uma escolha livre, e não uma exigência moral ou cultural (Herman, 1997).
Em terapias focadas no trauma, o foco principal é outro:
✅ Restaurar a segurança emocional, reduzindo a reatividade emocional associada às lembranças traumáticas
✅ Validar e aliviar a dor
✅ Favorecer a integração adaptativa das memórias, das experiências
✅ Ampliar os recursos de enfrentamento
✅ Reconstruir o senso de self valoroso sobre si mesmo
O perdão pode ou não emergir desse processo e ambas as possibilidades são legítimas.
Quando o perdão não é bem vindo para sobreviventes de trauma
Gregory (2022) aponta cinco razões pelas quais o perdão não deve ser imposto ou apressado por sobreviventes de traumas:
1. Segurança vem primeiro: Perdoar enquanto ainda se está em perigo pode colocar a pessoa em risco de novas vitimizações. A prioridade deve ser proteger a própria segurança antes de considerar o perdão.
2. Consequências naturais são importantes: Perdoar imediatamente pode impedir que consequências naturais ocorram, o que é essencial para aprendizado, crescimento pessoal e desenvolvimento moral.
3. Processamento emocional precisa acontecer: O perdão não substitui o enfrentamento das emoções dolorosas do trauma. Reconhecer e vivenciar raiva, medo, ressentimento e vergonha é fundamental antes de qualquer decisão sobre perdoar.
4. Suas necessidades devem ser prioridade: Sobreviventes de trauma precisam focar em estabelecer limites, fortalecer redes de apoio e cuidar da saúde física e emocional. O perdão só deve ser considerado ou se considerado quando houver energia emocional suficiente para isso.
5. O perdão é uma escolha pessoal: Ninguém deve se sentir obrigado a perdoar. Ter autonomia sobre essa decisão é parte essencial da recuperação e da sensação de controle sobre a própria vida.
Um cuidado ético-terapêutico oferece espaço para:
Validar a dor antes de falar em “libertação”;
Explorar sentimentos como raiva, mágoa, medo, vergonha, ressentimento, sem censura;
Questionar ideias morais impostas pela cultura, religião ou sociedade;
Permitir que a pessoa decida o que fazer com sua história, no seu tempo.
Como bem destacam Enright & Fitzgibbons (2015), até mesmo autores que estudam o perdão com profundidade alertam: usá-lo como “muleta moral” ou atalho para silenciar o sofrimento pode ser perigoso e antiético.
Alerta importante
Se você estiver em um processo terapêutico e ouvir frases como:
“Você só vai se curar quando perdoar”
"Está com raiva? Então ainda não superou”
“Precisa liberar esse perdão para ser livre”...pare e reflita. Isso não é ciência, é doutrinação, que pode até levar à retraumatização.
O perdão pode ser um caminho de melhora, cura. Mas seguir em frente com dignidade, clareza e proteção emocional também é possível sem ele. E isso também é libertação.
Referências
Davis, D. E., Worthington, E. L., Jr., Hook, J. N., & Hill, P. C. (2013). Research on religion/spirituality and forgiveness: A meta-analytic review. Psychology of Religion and Spirituality, 5(4), 233–241. https://doi.org/10.1037/a0033637
Enright, R. D., & Fitzgibbons, R. P. (2015). Forgiveness therapy: An empirical guide for resolving anger and restoring hope (2nd ed.). American Psychological Association. https://doi.org/10.1037/14526-000
Gregory, A. A. (2022, fevereiro 2). 5 reasons trauma survivors don’t forgive. Amanda Ann Gregory. https://www.amandaanngregory.com/5-reasons-trauma-survivors-dont-forgive
Hall, J. H., & Fincham, F. D. (2005). Self-forgiveness: The stepchild of forgiveness research. Journal of Social and Clinical Psychology, 24(5), 621–637. https://doi.org/10.1521/jscp.2005.24.5.621
Herman, J. L. (1997). Trauma and recovery: The aftermath of violence—from domestic abuse to political terror (Rev. ed.). Basic Books.
Ricoeur, P. (1996). O perdão pode curar? Revista Viragem, (21). Disponível em http://www.lusosofia.net/textos/paul_ricoeur_o_perdao_pode_curar.pdf (Acessado em 10/10/2025).
Walker, M. U. (2006). Moral repair: Reconstructing moral relations after wrongdoing. Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/CBO9780511617915
Webb, J. R., & Toussaint, L. L. (2020). Forgiveness, well-being, and mental health. In E. L. Worthington Jr. & N. G. Wade (Eds.), Handbook of forgiveness (2nd ed., pp. 188–197). Routledge/Taylor & Francis Group. https://doi.org/10.4324/9781351123341-18
Worthington, E. L., Jr. (2006). Forgiveness and reconciliation: Theory and application. Routledge. https://doi.org/10.4324/9780203944804
Worthington, E. L., Jr., Witvliet, C. V. O., Pietrini, P., & Miller, A. J. (2007). Forgiveness, health, and well-being: A review of evidence for emotional versus decisional forgiveness. Journal of Behavioral Medicine, 30(4), 291–302. https://doi.org/10.1007/s10865-007-9105-8
Josiane Campos
Psicóloga Clínica



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