EMDR: como funciona a terapia que ajuda a superar traumas
- psicottrauma
- 9 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 16 de out. de 2025

Você já passou por uma experiência difícil que, mesmo depois de muito tempo, ainda causa desconforto só de lembrar? Pode ter sido um acidente, uma perda, uma situação de violência, rejeição ou outro momento marcante. Às vezes, por mais que a gente tente seguir em frente, a lembrança volta com força, traz ansiedade, medo, angústia ou até sintomas físicos. É aí que entra a terapia chamada EMDR.
A sigla EMDR vem do inglês Eye Movement Desensitization and Reprocessing, que em português significa Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares. Apesar do nome técnico, a proposta é direta. O objetivo é ajudar o cérebro a processar memórias difíceis que ficaram mal resolvidas, como se tivessem sido guardadas de forma errada.
De onde vem a EMDR
Essa abordagem foi criada por Francine Shapiro no final da década de 1980. Ela surgiu inicialmente para tratar pessoas com transtorno de estresse pós traumático, como veteranos de guerra. Com o tempo, descobriu-se que a EMDR também pode ser eficaz, não somente para as violências sofridas, mas também para tratar outros problemas como ansiedade, fobias, luto complicado, traumas da infância, e até questões de autoestima.
O que acontece com o cérebro depois de um trauma
Quando passamos por algo muito perturbador, o cérebro pode não conseguir processar aquela memória da forma que normalmente faz com outras situações. Em vez de ser armazenada como algo do passado, essa lembrança fica presa, como se ainda estivesse acontecendo. Isso faz com que a pessoa reviva tudo de novo, com as mesmas emoções, sensações físicas e pensamentos negativos.
A EMDR ajuda o cérebro a reorganizar essas memórias, por meio de estimulação bilateral, ocular com movimentos dos olhos, ou rítmica à esquerda e à direita, como sons ou toques. Enquanto a pessoa se mantém concentrada nessas estimulações, de forma acordada e consciente, a intensidade emocional diminui, o que permite que as memórias dolorosas fiquem no lugar certo, como lembranças do passado que não machucam mais.
Como a EMDR funciona na prática
A terapia EMDR segue um passo a passo bem definido, com oito fases que orientam o processo desde o início até a conclusão do tratamento. Tudo é feito com muito cuidado e no ritmo da pessoa atendida. Veja como funciona cada fase.
Primeira fase: Conhecendo a história e organização do plano de tratamento
Nesta etapa o terapeuta escuta a história da pessoa, entende os sintomas e, junto com ela, define quais memórias ou situações serão trabalhadas. Os focos podem ser lembranças do passado, gatilhos do presente ou até medos em relação ao futuro.
Segunda fase: Preparação emocional/Estabilização
Antes de começar o trabalho com as memórias difíceis, o terapeuta ensina técnicas de regulação emocional. Um dos exercícios mais comuns é o lugar seguro, uma visualização que ajuda a trazer calma. Também são explicadas as formas de estimulação bilateral, como o movimento dos olhos, que será usado depois.
Terceira fase: Avaliação da memória que será trabalhada
Aqui é escolhida uma memória específica para ser o foco da sessão. O terapeuta ajuda a pessoa a identificar os detalhes da lembrança, como a imagem mais marcante, os sentimentos envolvidos, os pensamentos negativos e as sensações no corpo.
Duas escalas ajudam a medir a intensidade emocional da memória e a percepção da pessoa sobre si mesma:
A escala SUD avalia o nível de desconforto de zero a dez.
A escala VOC mede o quanto a pessoa acredita em um pensamento positivo de um a sete.
Quarta fase: Dessensibilização
Esta é a fase central da terapia. A pessoa foca na lembrança enquanto realiza movimentos oculares ou recebe estímulos alternados nos dois lados do corpo, como toques ou sons. Esse tipo de estimulação ajuda o cérebro a reprocessar a memória de forma mais leve. Durante o processo, é comum a lembrança ir perdendo força emocional aos poucos.
Quinta fase: Instalação
Depois que a memória deixa de ser tão perturbadora, o próximo passo é a consolidação de um novo aprendizado, isto é, acionar uma rede de memórias associadas ao estado de segurança.
Sexta fase: Varredura/Checagem corporal
Nesta etapa a pessoa é convidada a prestar atenção no próprio corpo enquanto acessa a lembrança. Se alguma tensão ou desconforto ainda estiver presente, o terapeuta continua o trabalho até que tudo esteja calmo.
Sétima fase: Fechamento da sessão
Ao final da sessão, o terapeuta garante que a pessoa esteja emocionalmente estável. Se a memória ainda não foi completamente resolvida, são ensinadas estratégias para lidar com qualquer desconforto até o próximo encontro.
Oitava fase: Reavaliação
Na sessão seguinte, o terapeuta verifica como a pessoa está se sentindo, se os efeitos positivos se mantiveram e se surgiram novas memórias ou temas que merecem atenção.
EMDR é para mim?
Uma das grandes vantagens da EMDR é que ela não exige que a pessoa fale em detalhes sobre o trauma. O trabalho acontece mais internamente, de forma segura e respeitosa. A ideia não é reviver a dor, mas ajudar o cérebro a lidar melhor com o que aconteceu.
Muitas pessoas relatam melhoras significativas após poucas sessões, principalmente na forma como se sentem ao lembrar da situação ou ao enfrentar desafios parecidos no presente.
Se você sente que carrega lembranças dolorosas que ainda afetam sua vida, a EMDR pode ser uma opção de tratamento eficaz e acolhedora.
Conclusão
Cada pessoa tem sua história e seu ritmo de melhora. A EMDR é uma das formas possíveis de tratamento, e tem se mostrado uma ferramenta poderosa, validada cientificamente, para quem busca aliviar o peso do passado e viver o presente com mais tranquilidade.
Se você se interessou por essa abordagem, procure um psicólogo capacitado na prática da EMDR. Você merece encontrar um caminho de cuidado que faça sentido para você. E o mais importante: você não precisa enfrentar isso sozinho.
Josiane Campos
Psicóloga Clínica


Comentários