top of page

Terapia comportamental com adolescentes: um espaço para respirar, sentir e transformar

  • psicottrauma
  • 16 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 10 de out. de 2025

ree

A adolescência é, muitas vezes, uma travessia turbulenta. É como estar entre dois mundos: não mais criança, ainda não adulto. O corpo muda, os sentimentos se intensificam, as amizades ganham outro peso, as pressões aumentam: sejam elas vindas da escola, da família, das redes sociais ou da relação consigo mesmo.

Nesse cenário, não é incomum que adolescentes se sintam confusos, sobrecarregados ou até mesmo “perdidos dentro de si”. Sintomas como ansiedade, irritabilidade, tristeza persistente, crises de choro, isolamento, automutilação, dificuldades de concentração ou explosões emocionais podem surgir como sinais de alerta. Outros conflitos, mais silenciosos, também aparecem: medo de decepcionar, sensação de não pertencer a lugar nenhum, dúvidas sobre quem se é ou o que se quer da vida, vergonha do próprio corpo, dificuldade em lidar com críticas, insegurança nas relações, dificuldades amorosas ou de relacionamentos familiares, questões existenciais profundas.

Para os pais, esse processo pode ser igualmente desafiador. Ver um filho sofrer sem saber como ajudar, lidar com afastamentos súbitos, comportamentos que parecem impulsivos ou agressivos, ou até ouvir um “não sei o que estou sentindo” pode gerar uma sensação de impotência, medo e culpa. É natural e humano sentir-se assim. E é justamente por isso que buscar apoio psicológico não deve ser visto como sinal de fraqueza, mas como um gesto de cuidado profundo.

Como a terapia comportamental pode ajudar?

A Terapia Comportamental oferece um espaço seguro e estruturado onde o adolescente pode explorar seus sentimentos, pensamentos e comportamentos com acolhimento, sem julgamentos. A ideia não é “controlar” as emoções, mas compreendê-las, nomeá-las e aprender a responder de formas mais saudáveis às situações difíceis.

A Terapia Comportamental parte da ideia de que os nossos comportamentos, inclusive os que nos causam sofrimento são aprendidos ao longo da vida. E, se foram aprendidos, podem ser compreendidos, modificados ou substituídos por outros mais saudáveis. Em último caso, aprende-se a relacionar-se com o sofrimento, quando ele não pode ser eliminado, mas pode ser acolhido e integrado à vida com mais gentileza e propósito.

Veja, a seguir, um breve passo a passo de como esse processo acontece na prática com adolescentes:

  1. Criação de vínculo e construção de um espaço seguro.

    O primeiro passo é sempre estabelecer uma relação de confiança. O adolescente precisa se sentir respeitado, ouvido e livre de julgamentos. Esse vínculo é a base para qualquer avanço terapêutico.

  2. Compreensão do problema

    O terapeuta investiga, junto com o adolescente, quando, onde e por que certos comportamentos acontecem, na presença de quem. Por exemplo: o que acontece antes da crise de raiva? O que a mantém? O que acontece depois? Essa investigação ajuda a entender os padrões que sustentam o problema e pode ser uma das ferramentas poderosas de autoconhecimento.

  3. Identificação de pensamentos e emoções associados

    A terapia ajuda o adolescente a tomar consciência de seus pensamentos, sentimentos e sensações desconfortáveis e autocríticas, que muitas vezes guiam suas ações sem que ele perceba. Isso reduz o sentimento de confusão ou descontrole.

  4. Desenvolvimento de habilidades emocionais e sociais

    O adolescente aprende, por meio de exercícios, metáforas e vivências, questionamentos, novas formas de lidar com frustrações, ansiedade, impulsividade, inseguranças e dificuldades nos relacionamentos. Isso inclui habilidades como pedir ajuda, se comunicar com clareza, identificar emoções e lidar com críticas.

  5. Estabelecimento de metas e ações baseadas em valores.

    O adolescente aprende a identificar o que realmente importa para ele. Valores como amizade, autonomia, justiça, por exemplo, e a traçar pequenas metas em direção a essas escolhas, mesmo com emoções difíceis presentes.

  6. Generalização para o cotidiano

    O que se aprende na terapia é constantemente aplicado à vida real: em casa, na escola, nos relacionamentos. O objetivo é que o adolescente se sinta cada vez mais capaz de enfrentar desafios com autonomia e flexibilidade comportamental, e não apenas dentro da sessão.

  7. Acompanhamento familiar (quando necessário)

    Quando os pais participam, seja com encontros de orientação ou sessões familiares, ampliamos o alcance da mudança. Eles aprendem a reforçar comportamentos positivos, lidar melhor com conflitos e oferecer suporte emocional sem reforçar dependência ou punição. Nesses encontros, oferecemos escuta, estratégias práticas de manejo, apoio emocional e uma visão mais clara dos processos que estão em curso. É um espaço para acolher as dores da parentalidade e fortalecer o vínculo com o filho com mais práticas positivas e menos reatividade.

Tempo de tratamento e orientação para os pais

O tempo de tratamento varia de acordo com a complexidade das questões envolvidas. Em alguns casos, com demandas menos complexas, pode durar 6 meses. Em outros, podem demandar mais tempo. A frequência costuma ser semanal, mas pode ser ajustada conforme as necessidades. As sessões duram 50 minutos.

Um processo conjunto

A terapia com adolescentes é um caminho feito em conjunto. Não é mágica, mas é transformador. É um processo de aprender a habitar a própria pele com mais leveza, mesmo quando ela parece apertada. De dar nome ao que dói. De encontrar liberdade para fazer escolhas alinhadas com quem se quer ser. E, acima de tudo, de saber que não se está sozinho. É uma importante ferramenta para enfrentar as adversidades que o mundo impõe. Ela promove autoconhecimento, amplia as estratégias de resolução de problemas e oferece suporte nas escolhas do dia a dia. Os adolescentes tendem a ser bastante responsivos ao processo terapêutico e se beneficiam profundamente desse cuidado com a saúde mental. Falo não apenas como psicóloga, mas também como mãe: iniciar um processo terapêutico pode ser uma das decisões mais acertadas que podemos tomar por um filho.


Josiane Campos

Psicóloga clínica


Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.
bottom of page